Reescrevendo 2 conhecidas sentenças e introduzindo 2 adivinhas

Dizia Sócrates: “Só sei que nada sei”. Frase bonita e que fica na memória das pessoas, ainda milénios depois. Mas contém em si uma falsidade, pois ao saber que nada sabia, Sócrates já sabia uma coisa. Apesar de perceber que se tratou dum artifício linguístico, custa-me muito pensar que este grande amante da sabedoria e opositor dos falaciosos Retóricos ficou célebre na História com uma estrondosa contradição.
Deveria antes ter dito que só sabia uma coisa. Por lógica elementar, deduziríamos imediatamente que, só sabendo uma coisa, o que sabia era precisamente que só sabia uma coisa; E que nada mais conhecia de qualquer outro assunto.
Portanto, a partir de hoje o dito deverá ser “Só sei uma coisa“. A partir deste raciocínio pode-se ainda tirar uma adivinha: “Só sei uma coisa, qual é ela? Isto mesmo“.

E que tal a afirmação “Não há regra sem exceção”? É claro que se trata duma regra, portanto terá uma exceção. Ou seja, haverá pelo menos uma regra sem exceção. Entrámos em contradição, a sabedoria popular tem-nos ensinado uma falsidade!
Deveria antes ser dito que só há uma regra sem exceção. Mais uma vez pela lógica, terá de ser ela própria a única regra sem exceção. Não sendo esta lógica tão elementar, elaborá-la-ei um pouco mais: “Só há uma regra sem exceção”; Imaginemos que a regra sem exceção era outra, então a regra inicial tem pelo menos uma exceção; Qual poderá ser a exceção a “Só há uma regra sem exceção”? Não haver regra sem exceção, já vimos que é uma contradição, logo a única exceção possível é haver outra(s) regra(s) sem exceção, mas então haveria mais de uma regra sem exceção, o que contradiz a hipótese; QED.
Portanto, a partir de hoje o dito deverá ser “Só há uma regra sem exceção“. A partir deste raciocínio pode-se ainda tirar uma adivinha: “Só há uma regra sem exceção, qual é ela? Esta mesma.“.

O crescimento económico

Não há valor tão universal nos nossos tempos como este: O crescimento económico. Não há dogma mais empedernido do que este: É preciso crescer economicamente.

Este credo varre a humanidade de Oriente a Ocidente e todos os estratos sociais o glorificam. É o Pai-Nosso na boca dos políticos, sejam da esquerda ou da direita, mas também os jornalistas, analistas e economistas o pregam às massas.

É um dogma tão fundamental que, a ser desacreditado, faria ruir toda a edificação da moral vigente e deixaria este mundo desalmado sem o seu único deus. Traz atrás de si todos os modelos de desenvolvimento e falhar neste compromisso acarreta uma regressão apocalítica: a fome, o desemprego, o colapso da proteção social e do sistema de saúde, gerações perdidas, o atraso e subordinação do país de cada um aos países de outros, a guerra provável por certo perdida…

Na cegueira provocada pelo brilho deste altar há valores perdidos; Há mundos destruídos. Há tanta voragem, tanto desequilíbrio, que o problema deixou de ser social ou humanitário: é uma questão de sobrevivência da vida no planeta. Nós somos as mestátases, que se espalham inexoravelmente até levar à morte o corpo em que nasceram. Consumimos tudo, multiplicamo-nos até à extinção, descontrolados e patogénicos.

Eu não penso – consumo-me

Eu não penso – consumo-me
Eu não sinto – sofro
Quando desejo já sossobro
Sempre que quero revolto-me

Não me satisfaço – dôo
Não me embriago – enveneno-me
Antes de acertar condeno-me
Se falho logo me rôo

Jamais alcancei – apenas envelheci
Não, não seduzo – grito por socorro
Antes de conquistar já me rendi

A mais plena alegria – um logro
Assim da forjada fé, jamais descri:
Quanto mais vivo, mais morro

FMI

Sinto uma tremenda frustração e bastante vergonha por fazer parte da História de Portugal neste momento de claudicação nacional. A vinda do FMI é a assunção da incapacidade de nos governarmos por nós próprios. Raras vezes fomos bons nessa arte, mas em ainda menos datas descemos a um nível tão deplorável de desorientação.

É verdade que somos hoje presas enjauladas depois duma caçada financeira montada pelos mercados, como jamais a Humanidade assistiu. Mas nunca o mundo foi um lugar fácil para se desenvolver uma história de nove séculos e se os nossos antepassados souberam enfrentar os inimigos também nós temos essa responsabilidade – agora falhada.

Os políticos são culpados por esta crise e deveriam pagá-la bem caro. Inacreditavelmente, segundo as sondagens os “Socialistas” ainda deverão eleger deputados e até têm hipóteses de ganhar as eleições. Ao serem de novo apoiados pelo voto, a única responsabilidade ficará então neste povo estúpido e reles.

São vários os níveis de responsabilidade deste povo estúpido e reles:
- Elegeu os políticos estúpidos e reles (no mínimo), dando cobertura a todo o rol de políticas erradas que nos trouxeram o descalabro;
- Endividou-se para lá do sensato (e do honesto);
- Rejeitou tenazmente qualquer apelo ao bom senso na utilização dos recursos disponíveis (carros e quilómetros a mais, 2ªas habitações, compra escusada de produtos importados, pouca adesão à ecologia, desordenamento do território, …);
- Teve falta de cidadania, de ação e até de interesse, bem como uma dececionante capacidade de ver mais de um palmo à frente do nariz.

Compreendo bem os povos Europeus que não nos querem emprestar dinheiro. Eles pedalam em bicicletas, preservam bem os seus recursos, são cidadãos bons e ativos, sabem governar-se e não reelegem políticos falhados. Porque raio hão-de arriscar agora o seu dinheiro, que tanto lhes custa a preservar, a uma cambada de inaptos preguiçosos (nem para votar num referendo levantamos a peida do sofá, +50% de abstenção), apoiando a nossa mediocridade? Só o farão na medida em que o nosso falhanço os comprometer – e isso acontecerá por causa da moeda que temos em comum.

Chego a desejar que ninguém nos empreste dinheiro. Já gastámos milhões das reservas de ouro do Estado Novo, já mandaram milhões da CEE, já mandaram milhões em empréstimos, queremos agora os milhões do FMI?! Enquanto não existirem cidadania, discernimento, dignidade e coragem neste país, podem torrar em Portugal o dinheiro que quiserem: vamos continuar a afundar-nos. São estes os valores de que precisamos, não dos que o FMI nos traz.

Venha a crise, um terrível e exemplar “abre-olhos” para os Portugueses. Se aprendermos a lição e nos tornarmos a partir daqui em cidadãos de nível europeu, rigorosos na escolha dos nossos políticos e investimentos, abençoarei esta crise. FMI, rua! Chamem antes a Unicef.

Deposição

Somos eternos nómadas, loucos peregrinos, filhos de Gengis Khan, ciganos, campinos.
Estendemos a tenda onde bate o Sol de Inverno ou debaixo das folhas frescas de Verão.

Vou esculpir nossas estátuas, figurando uma família feliz, e pô-las num remoto recanto pelágico.
Aí viveremos a nossa vida de pessoas estáveis, felizes e unidas, num sossego eterno e imutável.
Assim seremos completos, teremos a duplicidade dos deuses, Brahma e Shiva, ícones e iconoclastas.
Enquanto os nossos corpos se tornam pó e desintegram, saberás sempre que, lá no fundo, somos felizes.

A depressão deprime-me

28 milhões de embalagens de psico-fármacos vendidas em 2008, num país de 10 milhões de habitantes! É trágico!

A depressão é um sintoma e não uma doença. Esta doença pode ser um modo de vida desajustado, um trauma, a exclusão social, simples inadaptação à vida, entre outras. Então a única forma positiva de tratar a depressão é resolver os problemas que estão na sua origem. Entretanto podem-se tomar uns anti-depressivos como paliativos, em casos mais graves ou de resolução morosa. Mas não é isto que se faz em grande parte dos casos (nesse caso o consumo não seria de certeza tão elevado): Na maioria das vezes entende-se o alívio do medicamento como se fosse a cura, o que é gravíssimo, pois passa a haver uma dependência de drogas que vem piorar a vida dos doentes.

Quantos jovens começam a sua idade adulta com muletas psico-activas, perdendo a oportunidade de robustecer o seu carácter? Quantos adultos com idade para ter juízo consomem psico-fármacos como simples forma de se doparem, para enfrentarem uma vida de exigências sobre-humanas, em vez de baixarem o seu ritmo de vida para níveis aceitáveis? Estamos a criar uma sociedade muito doente de alienados, zombies dopados, profundamente infelizes, sem prazer, incapazes duma reacção. Uma sociedade em que cada pessoa é um membro sem capacidade de se auto-gerir, influenciável e manipulado, em que o terapeuta dita as regras e decide quem é feliz. O vazio de cada existência não está a ser preenchido pela procura consequente duma razão para existir, os elos estão-se a quebrar, os mecanismos de auto-satisfação automatizam-se artificialmente. Enche-se a vida de futilidades e para embrulhar tudo mete-se uma pitada de drogas na mistura. Somos humanos ou cobaias num gigantesco laboratório?

Muitas vezes o que é necessário é encarar os problemas, resolvê-los de forma determinada, com dor, com sofrimento, mas definitivamente. Ora quando se tem a consciência alterada por fármacos isso dificilmente acontecerá. Vivam a vida, assumam as vossas opções, encarem a realidade sem drogas, o único tratamento é terem coragem e amor!