A vida enterior

Ser pai trouxe-me uma visão diferente da vida em muitos aspectos. Algo que me aturdiu, foi a percepção da quantidade de coisas que esquecemos; Coisas antigas, preciosas, de descoberta maravilhada. A primeira impressão do mundo nunca é recordada, pois a consciência ainda não está suficientemente desenvolvida para que a memória se conserve para toda a vida. Acredito, no entanto, que essas impressões iniciais sejam evocadas para sempre; E que nos influenciem decisivamente na nossa relação com o próximo, nas preferências artísticas ou na postura que assumimos perante a vida.

Agora a bebé dorme na sala do café. Existe na sua esfera ambiente a música de fundo, o barulho dos carros lá fora, a conversa dos clientes e do empregado, o frio que entra pela porta aberta, o cheiro a bolos e torradas, o entrechocar da loiça depositada nos tabuleiros… Que sonha a minha menina? Que sonha um ser desconhecedor das palavras, que só se exprime precariamente por monossílabos? Que imagens produzem os seus neurónios e com que sabores por sinestesia?

Também eu já dormi num destes carrinhos. E andei ao colo, caguei-me e chorei. Absorvi cada imagem como Colombo descobriu a América: sem perceber nada do que estava a ver mas perfeitamente deslumbrado. O que é hoje feito destas recordações? Tornaram-se impressões, leves como uma brisa de Primavera, fugídias como o primeiro arrepio de Inverno, como o cheiro a castanhas no Outono ou a marezia no primeiro dia de praia. Estão impregnadas tão fundo em nós que mal começamos a pensar nelas as tapamos com um raciocínio de betão. São como a aura, que nos abraça e nos tem, mas nem sequer pertence a este mundo. Rodeiam-nos como nos altares os querubins se dispõem à volta do Deus velho.

Destino final: Uma nova dimensão

Assim sem mais nem menos, afirmo agora: Descobri uma nova dimensão.

Pronto, até aqui foi fácil. Seguidamente, vou explicar qual é a coisa qual é ela, o que é mais complicado. Mas delicia-me pensar sobre isto, porque sinto uma enorme vertigem e tenho esperança de que cheguemos longe caminhando neste novo sentido.
Ainda não lhe arranjei um nome. Para já, chamo-lhe apenas a Nova. Uma unidade de medida para ela: O Núnio (Nu). Em honra de Pedro Nunes, do meu avô Alfredo e de mim próprio, que no casamento adoptei esse nome de minha esposa.

Apertem os cintos, os impostos estão prestes a subir… e a viagem a começar.

Olá mundo!

Já desde a infância escrevia a data em locais onde sabia que só em dia incerto voltaria, por uma necessidade de marcar o tempo. Gosto de me olhar através de janelas temporais. Tenho n locais onde me disse adeus e onde irei um dia para receber esse aceno. É uma mania que ganhei do meu avô, um português muito melancólico, paradoxal, com uma simplicidade sagaz só existente nos humildes.

Desde os 14 anos escrevo notas soltas sobre a vida, para me entender, como catarse duma preplexidade existencialista. As opções são tomadas tão no âmago dos nossos pensamentos, mas são tão públicas as suas manifestações! Andamos nus e todas as nossas insuficiências nos podem humilhar se não forem plenamente assumidas – mesmo que em privado, mesmo que num papel esquecido. Escrever educa a mente: torna-a metódica, arrumada, obriga-a a enfrentar e a confrontar a realidade. Se então não somos sinceros, para sempre e em todo o lado seremos fingidores.

Esses são textos destinados a apodrecerem no fundo da gaveta só raramente visitada, com muito prazer. Agora inauguro uma nova fase: escrever num Blog. Existe muito em comum entre um Blog e as folhas soltas que escrevi e fui guardando. É um pano de retalhos que se entrelaçam, com matizes e motivos diversos. Nem sei porque não fui mais persistente em desenvolver um (já comecei vários). Adequa-se perfeitamente à minha escrita testemunhal, de breves reflexões, de tomada de notas. E trabalho com sites e aplicações web, pela qual nutro imensa simpatia e esperança de que seja uma ponte entre todas as pessoas duma sociedade fraterna. Estou no meu mundo, então!

Desta feita vou em frente. Vou persistir. Vou construír um quarto só meu, onde as paredes e os armários estão cheios de tinta escorrida, de mim, introspectivamente.