Eu não penso – consumo-me

Eu não penso – consumo-me
Eu não sinto – sofro
Quando desejo já sossobro
Sempre que quero revolto-me

Não me satisfaço – dôo
Não me embriago – enveneno-me
Antes de acertar condeno-me
Se falho logo me rôo

Jamais alcancei – apenas envelheci
Não, não seduzo – grito por socorro
Antes de conquistar já me rendi

A mais plena alegria – um logro
Assim da forjada fé, jamais descri:
Quanto mais vivo, mais morro

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Deposição

Somos eternos nómadas, loucos peregrinos, filhos de Gengis Khan, ciganos, campinos.
Estendemos a tenda onde bate o Sol de Inverno ou debaixo das folhas frescas de Verão.

Vou esculpir nossas estátuas, figurando uma família feliz, e pô-las num remoto recanto pelágico.
Aí viveremos a nossa vida de pessoas estáveis, felizes e unidas, num sossego eterno e imutável.
Assim seremos completos, teremos a duplicidade dos deuses, Brahma e Shiva, ícones e iconoclastas.
Enquanto os nossos corpos se tornam pó e desintegram, saberás sempre que, lá no fundo, somos felizes.

E se eu tivesse um destino?

O destino é um desfecho lógico, corolário duma elaborada tese ou de breve antítese. Não sou místico, o destino será simplesmente uma perspectiva da vida. Mas nem todos a exibirão obrigatoriamente. Apenas quando numa vida errática tudo acaba por bater certo, então sim, dizemos “estava destinado”.

Quem incorre na persistência e com todas as forças percorre um caminho, seja ascendente ou de destruição, provavelmente não tem um destino – apesar de o crer. Quem luta uma vida inteira poderá chegar muito longe, mas provavelmente não tem um destino – pelo menos não aquele que pensa. Porque o destino não se faz, acontece.

E sucede tão tragicamente, de forma tão maravilhosa, que no instante em que o reconhecemos, lívidos e chorosos, temos um lampejo de compreensão do que é, na verdade, a vida. Então revisitamos cada episódio duma vivência fragmentada, juntamos os cacos e balbuciamos, babados e ranhosos, que foi o destino.

Há quem diga que todos temos nosso fado, e o fado é uma forma triste de destino, ou de lá chegar. Não se sei se afinal todos o temos. É possível que sim, mas concerteza só poucos o conhecem. Hoje tive um vislumbre de qual poderia ser o meu. Mas ainda falta cumprir, portanto falta tudo, portanto não tenho um.

Mas, e se eu tivesse mesmo um destino? Morreria no instante em que o reconhecesse, feliz e apoplético. Como acontece a todos os que o cumprem: passam a integrar o panteão dos grandes homens, bons ou maus. Mesmo que os seus corpos permaneçam entre nós, existe um abismo vertiginoso que nos separa e nada do que é mundano lhes pode tocar.

Momentos felizes

Enquanto o pau vai e vem
Folgam as costas
E ponho-me a pensar
Num bater de asas soalheiro

Dou um passeio sem destino
Bem disposto, folgazão
Encosto-me ao burburinho
E adormeço depois do amor

Ainda no primeiro contacto
Em que a verdasca encostada
À pele, sem ferir, permanece
Medito feliz e suspiro

Entre um grito e o seu eco
Ainda nem o sangue brota
Choro de alegria, extasiado
A sonhar mundos futuros

Sobe o pano

Para ver, pagas bilhete e sentas-te na bancada; Para viver, sobes ao palco e participas no espectáculo.

Há um improviso constante a decorrer no proscénio infinito. E uma algazarra de Revista no centro da cena. Aos poucos vais-te embrenhando no arraial, descobres mais e mais colegas desempenhando o seu papel. Vês um cenário grandioso à tua volta… A alguns passos de ti reparas que tem mais cor, recebe mais luzes dos projectores e onde a acção flui mais animada. As luzes… as brancas tão alvas!, as coloridas tão envolventes! Que destaque tomam na oposição às trevas da plateia que não vês! Como se Deus fosse o espectador e as luzes o nosso caminho para Ele. A luz enebria, enleva-te, dilui-te na massa de gente que contracena e se acotovela gritando. Nínguem segue o guião inexistente, todos inventam as suas deixas inspirados ao momento pelo êxtase do palco. Entras na convulsão, estendes as mãos e gesticulas. Num passo de magia, inventaste um papel para ti, sentes-te parte da história, um personagem como os outros que procuram luz e aplausos.

Lembras-te donde vieste? Jamais lá voltarás.

Olha

Olha
Flora que destruímos
Animais que matamos
Tanto sangue, tão infames!

Olha
Mares que poluímos
Peixe que intoxicamos
Tantos loucos, tão insanes

Refrão

Olha à tua volta
Vê a destruição
O céu já sem beleza
Espelhando o betão

Olha para ti
Não te sentes um pouco mal
Amando a Natureza
Serás mais racional

Olha
Desertos que se expandem
Glaciares a derreter
Tantos gritos, tanto muro

Olha
Venenos que se vendem
A gente a sofrer
Tanta cria sem futuro

Refrão

Olha à tua volta
Vê a destruição
O céu já sem beleza
Espelhando o betão

Olha para ti
Não te sentes um pouco mal
Amando a Natureza
Serás mais racional

Ode credo

Meu Deus!
Quantas cores eu vejo na vida!
Quanta religião em todos os seres!

Acredito em tudo.
Tenho fé no todo.
Sou um apóstolo de todas as crenças!
Estou num Universo infinito, posso navegar em todas as direcções
E em todo a parte existe Deus
E em todo o lado existem novos caminhos para novos lados de outros deuses
Sou um fanático de todos os caminhos para todos os lados de todos os deuses.

Por aqui! por aí! Por lá! Por Alá! Por Caím!
Venham cá! Vão por mim: o caminho é assim!
Acreditem, eu vi! Falaram comigo milhões de deuses e não percebi nada do que diziam. Mas adorei ouvi-los, venerei-os a todos e concluí que o caminho é…

Para ali!

Tenho a certeza. Agora sim eu sei! O caminho é para… a luz? para a escuridão? p’rá servidão ou p’ró que seduz? O caminho é…

Para ali!

Eheh…
Se não fosse para ali era para além
Mas fiz como deus me mandou.
Qual deles? Elah, p’r’aí já não vou!

Não se reneguem irmãos!
Acreditem irmãos!
Vamos irmãos!
P’r’ali irmãos!

Meus deuses!
Quantas cores eu vejo na vida!