O crescimento económico

Não há valor tão universal nos nossos tempos como este: O crescimento económico. Não há dogma mais empedernido do que este: É preciso crescer economicamente.

Este credo varre a humanidade de Oriente a Ocidente e todos os estratos sociais o glorificam. É o Pai-Nosso na boca dos políticos, sejam da esquerda ou da direita, mas também os jornalistas, analistas e economistas o pregam às massas.

É um dogma tão fundamental que, a ser desacreditado, faria ruir toda a edificação da moral vigente e deixaria este mundo desalmado sem o seu único deus. Traz atrás de si todos os modelos de desenvolvimento e falhar neste compromisso acarreta uma regressão apocalítica: a fome, o desemprego, o colapso da proteção social e do sistema de saúde, gerações perdidas, o atraso e subordinação do país de cada um aos países de outros, a guerra provável por certo perdida…

Na cegueira provocada pelo brilho deste altar há valores perdidos; Há mundos destruídos. Há tanta voragem, tanto desequilíbrio, que o problema deixou de ser social ou humanitário: é uma questão de sobrevivência da vida no planeta. Nós somos as mestátases, que se espalham inexoravelmente até levar à morte o corpo em que nasceram. Consumimos tudo, multiplicamo-nos até à extinção, descontrolados e patogénicos.

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A depressão deprime-me

28 milhões de embalagens de psico-fármacos vendidas em 2008, num país de 10 milhões de habitantes! É trágico!

A depressão é um sintoma e não uma doença. Esta doença pode ser um modo de vida desajustado, um trauma, a exclusão social, simples inadaptação à vida, entre outras. Então a única forma positiva de tratar a depressão é resolver os problemas que estão na sua origem. Entretanto podem-se tomar uns anti-depressivos como paliativos, em casos mais graves ou de resolução morosa. Mas não é isto que se faz em grande parte dos casos (nesse caso o consumo não seria de certeza tão elevado): Na maioria das vezes entende-se o alívio do medicamento como se fosse a cura, o que é gravíssimo, pois passa a haver uma dependência de drogas que vem piorar a vida dos doentes.

Quantos jovens começam a sua idade adulta com muletas psico-activas, perdendo a oportunidade de robustecer o seu carácter? Quantos adultos com idade para ter juízo consomem psico-fármacos como simples forma de se doparem, para enfrentarem uma vida de exigências sobre-humanas, em vez de baixarem o seu ritmo de vida para níveis aceitáveis? Estamos a criar uma sociedade muito doente de alienados, zombies dopados, profundamente infelizes, sem prazer, incapazes duma reacção. Uma sociedade em que cada pessoa é um membro sem capacidade de se auto-gerir, influenciável e manipulado, em que o terapeuta dita as regras e decide quem é feliz. O vazio de cada existência não está a ser preenchido pela procura consequente duma razão para existir, os elos estão-se a quebrar, os mecanismos de auto-satisfação automatizam-se artificialmente. Enche-se a vida de futilidades e para embrulhar tudo mete-se uma pitada de drogas na mistura. Somos humanos ou cobaias num gigantesco laboratório?

Muitas vezes o que é necessário é encarar os problemas, resolvê-los de forma determinada, com dor, com sofrimento, mas definitivamente. Ora quando se tem a consciência alterada por fármacos isso dificilmente acontecerá. Vivam a vida, assumam as vossas opções, encarem a realidade sem drogas, o único tratamento é terem coragem e amor!

Pontos de Vista

Num dos dramáticos momentos da tv, a raposa come um ganso bebé. Estamos em família a ver a série de vida selvagem e a minha filha assiste constrangida ao momento.

A minha mãe começa a dizer “tadinho”, para a Eunice, afligindo-a ainda mais. Eu fico constrangido e penso que a criança ficará traumatizada para toda a vida depois de assistir à matança. De repente estamos todos abalados com esta cena, tão banal em toda a Natureza.

Então falo: «Olha, a raposa está a papar! É, a Nice também come a papinha, pois comes? É muita bom! Para ficares graaannddeee! Arrmnhhh!». E pronto, o ambiente desanuviou um bocado.

Na Natureza há quem coma e quem seja comido. Neste esquema tão complexo lamento em primeiro lugar as plantas, que são unicamente vítimas. De resto todos os seres comem e são comidos e atrevo-me a dizer que ainda bem, pois sou um apaixonado pela Natureza. Mesmo as plantas necessitam dos animais que as comem, para que o oxigénio seja consumido e o dióxido de carbono libertado.

A Nice ao ver aquela cena brutal ficou genuinamente impressionada. Mas duvido que estivesse a tecer juízos de valor. A minha mãe aumentou o impacto da situação ao colocar-se no lugar da vítima, transmitindo a sua dor. Penso que bastante melhor é o lugar do predador e foi a sua satisfação que tentei transmitir à minha filha.

O mundo é bárbaro sim, precisamente por isso convém vê-lo duma forma construtiva e positiva. E forte. Não quero que a minha filha se coloque no papel de vítima; Quero que se veja no papel activo, de quem está a sobreviver.

Nada mudou na morte da ave nem na vida do mamífero. Mas espero que alguma coisa tenha mudado na mentalidade da minha filhota, para melhor.

Solipsismo – Uma discussão filosófica

Posto aqui um excerto duma discussão com o meu irmão (a parte da conversa que decorreu por email).

  • Eu:

Encontrei na wikipédia a teoria que defendes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Solipsismo
Não gosto nada dessa teoria, não por a achar absurda, mas porque a acho estéril.
Com efeito, tudo poderá passar por uma ilusão. Agora 2+2 são 4 e daqui a pouco poderão ser 5. É a chamada lógica da batata. Mas então nem vale a pena discutir, porque jamais saberemos o que quer que seja. Mais vale estarmos calados e cagarmos para a discussão.

Mesmo considerando esta teoria merecedora de discussão poderás evoluir para o seguinte conceito:
Tu existes porque pensas. O resto do mundo também existe, nem que seja só no teu pensamento. Então, ambos existem. Ora, se ambos existem, poderá dar-se o caso de ser o mundo que te pensa, ou seja, o teu pensamento é algo que flui pela tua cabeça mas que verdadeiramente não é teu. Falas como se fosses uma marioneta. A partir daí, convém formulares algumas considerações metafísicas sobre o mundo sem o limitares à tua pessoa; e podemos voltar a discutir.

  • Mano:

Não nego que exista realidade para além de mim. De facto, parece-me bastante provável que exista. No entanto, eu só tenho acesso a 1 imagem dessa realidade que me é dada pelos meus limitados sentidos. Logo, o que eu não acho de grande vantagem discutir é 1 realidade que me transcende e da qual eu pouco posso conhecer.
Ou seja:
1. Existe 1 realidade para além de mim
2. Essa realidade apenas me é acessível através dos meus sentidos.
3. Para entender essa realidade eu necessito de a adaptar ao meu limitado entendimento (tenho de «encaixá-la» dentro de coordenadas espacio-temporais e segundo 1 lógica determinada)
4. O resultado deste exercício é a MINHA realidade, e essa é a única que posso conhecer e discutir.
Ainda que tudo ou quase tudo o que exista seja produto do meu pensamento, não vejo qualquer problema em discutir qualquer assunto que seja.
Mesmo que considere que estou a discutir comigo próprio.
Não vejo que tal concepção impeça o debate sobre o que quer que seja.
Discutíamos Deus. Vamos supor que toda a realidade é apenas 1 construção tua. Eu apenas existo na tua cabeça. Mas, de igual forma, todo o mundo e toda a eternidade apenas existem dentro de ti. Portanto, Deus poderá ser eterno e omnipresente ainda que apenas dentro de ti.

2+2 nunca poderão ser 5. Isto porque a matemática é, exactamente, o estudo da lógica com que tu ordenas a realidade à qual tens acesso.
Ainda que exista 1 realidade para além de ti, e eu acredito que exista, essa realidade não é ordenada matematicamente. É o teu limitado cérebro que a concebe dessa forma, deturpando-a, por forma a conseguir conhecê-la e guardá-la. Quando 2+2 fossem 5 o teu mundo virava-se de pernas para o ar e deixavas de ter entendimento.

  • Eu:

Bom, então sim poderemos discutir. Aliás, se cada um tem a sua realidade, penso que é urgente a discussão, para que através do cruzamento de experiências e opiniões possamos aprender uns com os outros. Penso que é isso que os filósofos vêm fazendo e que é um caminho muito salutar.

Nos 4 pontos que enumeras, aceitas uma realidade exterior. Porque não a poderás discutir? Se ambos vivemos nela (suponho que essa uma é a mesma para ti e para mim), não só podemos como devemos. Se a imagem que temos dela é distorcida e própria, ainda mais devemos discutir, para que possamos através da dialéctica aproximar-mo-nos da verdade. Eu quando estou a falar contigo, não pretendo estar a falar a Verdade. Estou a expressar um conjuntos de impressões que na minha opinião se aproximam da realidade. Estou a confrontar a MINHA realidade (que não passam de impressões) contigo.

Ou seja, eu não preciso de encaixar A realidade dentro de coordenadas nenhumas. Eu “tenho” é de encaixar as minhas impressões nA realidade. É o sentido inverso que pretendo fazer, ao discutir, para me aproximar do entendimento.

Tenho estado a colocar aqui letras grandes, mas acho urgente definir aqui alguns conceitos. Vamos chamar a A realidade de “realidade”. Vamos chamar à TUA e à MINHA realidades de… “realidade subjectiva”? ou consciência, que é mais curto.

Ao supor que toda a realidade é uma concepção minha, estou a supor algo em que não acredito, é a tal teoria que eu imputo de estéril. Se Deus é eterno e omnipresente apenas em mim, então não é eterno nem omnipresente na realidade, pois eu não estou em toda a parte e nasci e morrerei algum dia. Portanto acho melhor discutir se ele tem essas qualidades sem nos importarmos muito com pessoas em particular.
Talvez ao falarmos de Deus estejamos a falar de coisas diferentes? Para mim, entre muitas outras coisas, Deus será o criador; O meu criador. E não o contrário. Portanto, a existir, ele terá sempre de ser exterior a mim e de existir antes de mim. Se ele fosse uma criação minha, então eu seria ainda mais Deus que ele lol..

Também não acho que a realidade é ordenada matematicamente. A matemática é uma abstracção, muito útil. Jamais julguei que o mundo fosse regido por leis matemáticas universais, embora admita que tal até pode ser verdade (ou seja, não acredito mas aceito que seja possível).
Agora, na teoria extremista de que só existe a MINHA realidade, 2+2 podem ser 5, pois toda a lei, todo o teorema estariam na minha cabeça e eu definiria a cada momento o que seria verdade. E tu não terias nada a ver com isso 😛

  • Mano:

Ok. vamos, então, por partes.
Sobre a questão da realidade existir ou não haveria ainda alguns aspectos que gostaria de expor mas que deixarei para mais tarde.

Sobre a questão da matemática é importante que se note que a realidade não é regida por leis universais. É a tua realidade, ou a realidade subjectiva, que é regida por leis matemáticas. Essas leis não és tu, pelo menos conscientemente, que as defines. Nascem contigo, da mesma forma que as cores não existem mas são formadas pelo teu aparelho sensorial, ou os sons, ou as sensações (de facto, tudo isso é apenas energia que, consoante o orgão que a capta, é transformado por ti em cor, som ou sensação e tu não podes decidir que o vermelho passe a ser verde ou amarelo.) A matemática não estuda a realidade mas sim a estrutura que o teu cérebro usa para encaixar a realidade e torná-la cognoscível. A matemática está no teu cérebro mas tu não tens controle sobre ela.

Mas falemos sobre Deus, que foi a origem da nossa conversa.
Apetece-me dizer, e diria-o com razão, que Deus não se explica. É 1 questão de fé. Mas tentarei racionalizar mesmo sem garantir grande qualidade no resultado.
Não me parece razoável a existência de um Deus universal, omnipotente, eterno, consciente, com um plano para a humanidade e construído à imagem do Homem. A maioria das grandes igrejas parece-me propor um deus estilo super-homem. Afasto-me dessa imagem.
Para mim, Deus, terá 2 dimensões. Uma é exterior e poderá existir para além de mim. A outra é absolutamente interior.
A primeira parte dos seguintes pressupostos:
– Existe algo para além de mim
– Esse algo é composto por forças (energia) que, pelo menos em grande medida, eu não controlo fisicamente e não conheço
– Ao longo dos tempos, a humanidade desenvolveu diversas formas de tentar controlar, entender, dirigir essa(s) energia(s) – rituais (Uma oração, uma eucaristia, uma cerimónia satânica, etc, etc).

A segunda é mesmo uma questão de fé. A fé é (ou pode ser) um poderoso motivador pessoal. Dá esperança no desespero, dá força, resistência, segurança. É 1 companhia na solidão. Ao rezar, ao agradecer ou pedir a Deus, estamos a interiorizar agradecimentos e pedidos a nós próprios de forma muito forte. É 1 relação connosco próprios através de Deus.

Com estes 2 pontos, bastante mal explicados, não posso afirmar nem defender que Deus existe como realidade exterior a mim. Pode muito bem ser apenas uma construção interior e, dessa forma é apenas o meu deus e não é nem eterno, nem universal.
Estes 2 pontos também não definem o que é Deus. Por um lado será a energia do mundo, que cria toda a massa, a força que movimenta tudo, ou seja, é o próprio mundo. Por outro é a minha própria consciência.

  • Eu:

Parece-me que ambos tendemos para os dogmas nas questões opostas:

1) eu acho que a matemática/ciência é pessoal, se o são as realidades de cada um;
2) eu acho que Deus é universal, se existir;

1) Se a realidade é intrínseca a cada indivíduo, ele pode a cada momento decidir o que bem entender. Isso aconteceu na história, quando se disse que a Terra andava à volta do Sol ou quando se procurou a pedra filosofal ou quando os Pitagóricos mataram o discípulo que descobriu os números não fraccionários. Só aceitando que existe uma realidade universal, na qual todos vivemos e que existe per si, e já antes de eu existir, é que me parece que a matemática será universal. Só assim eu não poderei decidir o que cada coisa é a cada momento, com verdade. Caso contrário, posso decidir que o amarelo é vermelho hoje e o contrário amanhã e ao dizê-lo falar verdade… a minha verdade.

2) Concluo que a minha noção de Deus não coincide com a tua. Eu quando falo de Deus falo precisamente do ser universal, omnipotente, eterno e consciente. Outras entidades altamente obscuras como o “algo para além” etc… são tão vagas que não me posso pronunciar. Esta definição de Deus, ou uma enumeração, incompleta que seja, das suas características, é fulcral para a nossa discussão. Pego nas tuas palavras:

Por um lado será a energia do mundo, que cria toda a massa, a força que movimenta tudo, ou seja, é o próprio mundo.

Se Deus fosse o próprio mundo, penso que não valeria a pena dar-lhe mais nomes, ou pelo menos seria algo redundante assim como a nossa conversa. Mas acho que o teu resumo final ignora a parte mais importante que disseste: O que cria toda a massa. Ou seja, verás Deus como o Criador? Independentemente de ser universal, omnipotente, eterno e consciente? Por exemplo, admitirias que o Big-Bang poderia ser o Criador, que poderia ser Deus? Ou estará ainda para além dum fenómeno físico (e para além da física)?

Gostaria de discutir este ponto, caso de alguma forma concordes com as minhas conclusões das tuas palavras. Para já não me pronuncio, embora o deva fazer porque realmente é uma visão de Deus já bastante assertiva. Adianto apenas que, se vês Deus como Criador, o verás como entidade Universal (Criador do Universo, certo?). Mas aguardo que me confirmes se vês Deus como o Criador… até para não alongar este episódio do nosso debate.

Que encerro desde já dizendo que a segunda dimensão de Deus que falas não me merece muita reflexão. As pessoas vão buscar forças e depositam fé em muitas coisas, algumas que não esperaríamos: paus, pedras, imagens, panos, ossos, fenómenos físicos… O facto de isso as ajudar não é o suficiente para considerar que estes objectos encerram algum tipo de para-normalidade. São fenómenos essencialmente psicológicos que, penso, não provam existir nem servem de consistência à entidade Deus.

Ateu e agnóstico… e cristão

Em termos religiosos, sou ateu e agnóstico.

Ateu porque não acredito em deus nenhum; Nem me parecem verosímeis as religiões que até hoje fui conhecendo. 1) Procurar explicações para a vida e para a existência num ser superior apenas permite avançar um degrau na compreensão do todo, o que me soa extremamente inútil: Se a razão pela qual existimos e a finalidade do Homem fossem explicados pela existência dum Criador absoluto, ficaríamos confrontados com a razão pela qual existe e para que fim existe o Criador. Portanto, essa história não vai ao fundo da questão e não satisfaz. 2) A acreditar numa religião, qual deveria escolher? Porque há-de a religião católica ser mais credível do que a dos antigos egípcios ou a dos animistas? Algo tão fundamental e universal jamais poderá estar dependente do contexto social e histórico em que nasci. Caso eu fosse religioso, acreditaria em todas as religiões, que são contraditórias entre si. Portanto é forçoso não acreditar em nenhuma.

Sou agnóstico, porque não sei se existe Deus. Nunca encontrei provas de que ele existiria e por mais inverosímil que me pareça a sua existência jamais provei ou vi provada a sua inexistência. Penso que esta seria uma opção avisada mesmo para os crentes: manter a dúvida. Mas curiosamente, já conheci quem dissesse ter a certeza absoluta de que Deus existe: tal como ao olhar eu tomo conhecimento dos objectos, essa pessoa disse ter alguma forma de precepção que lhe transmitia objectivamente a presença de Deus. Nesse caso, eu seria um deficiente desse sentido místico lol..

Sei que muita coisa está por compreender e que devemos estar abertos a explicações menos científicas que indiquem um caminho para o conhecimento profundo da existência. Eu próprio afirmo que sou cristão (como seguidor da moral cristã). Mas não acredito numa consciência sobrenatural no Universo. Talvez esteja mais próximo das religiões orientais, sobre as quais não conheço o suficiente para opinar.