Eu não penso – consumo-me

Eu não penso – consumo-me
Eu não sinto – sofro
Quando desejo já sossobro
Sempre que quero revolto-me

Não me satisfaço – dôo
Não me embriago – enveneno-me
Antes de acertar condeno-me
Se falho logo me rôo

Jamais alcancei – apenas envelheci
Não, não seduzo – grito por socorro
Antes de conquistar já me rendi

A mais plena alegria – um logro
Assim da forjada fé, jamais descri:
Quanto mais vivo, mais morro

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Deposição

Somos eternos nómadas, loucos peregrinos, filhos de Gengis Khan, ciganos, campinos.
Estendemos a tenda onde bate o Sol de Inverno ou debaixo das folhas frescas de Verão.

Vou esculpir nossas estátuas, figurando uma família feliz, e pô-las num remoto recanto pelágico.
Aí viveremos a nossa vida de pessoas estáveis, felizes e unidas, num sossego eterno e imutável.
Assim seremos completos, teremos a duplicidade dos deuses, Brahma e Shiva, ícones e iconoclastas.
Enquanto os nossos corpos se tornam pó e desintegram, saberás sempre que, lá no fundo, somos felizes.

Momentos felizes

Enquanto o pau vai e vem
Folgam as costas
E ponho-me a pensar
Num bater de asas soalheiro

Dou um passeio sem destino
Bem disposto, folgazão
Encosto-me ao burburinho
E adormeço depois do amor

Ainda no primeiro contacto
Em que a verdasca encostada
À pele, sem ferir, permanece
Medito feliz e suspiro

Entre um grito e o seu eco
Ainda nem o sangue brota
Choro de alegria, extasiado
A sonhar mundos futuros

Olha

Olha
Flora que destruímos
Animais que matamos
Tanto sangue, tão infames!

Olha
Mares que poluímos
Peixe que intoxicamos
Tantos loucos, tão insanes

Refrão

Olha à tua volta
Vê a destruição
O céu já sem beleza
Espelhando o betão

Olha para ti
Não te sentes um pouco mal
Amando a Natureza
Serás mais racional

Olha
Desertos que se expandem
Glaciares a derreter
Tantos gritos, tanto muro

Olha
Venenos que se vendem
A gente a sofrer
Tanta cria sem futuro

Refrão

Olha à tua volta
Vê a destruição
O céu já sem beleza
Espelhando o betão

Olha para ti
Não te sentes um pouco mal
Amando a Natureza
Serás mais racional

Ode credo

Meu Deus!
Quantas cores eu vejo na vida!
Quanta religião em todos os seres!

Acredito em tudo.
Tenho fé no todo.
Sou um apóstolo de todas as crenças!
Estou num Universo infinito, posso navegar em todas as direcções
E em todo a parte existe Deus
E em todo o lado existem novos caminhos para novos lados de outros deuses
Sou um fanático de todos os caminhos para todos os lados de todos os deuses.

Por aqui! por aí! Por lá! Por Alá! Por Caím!
Venham cá! Vão por mim: o caminho é assim!
Acreditem, eu vi! Falaram comigo milhões de deuses e não percebi nada do que diziam. Mas adorei ouvi-los, venerei-os a todos e concluí que o caminho é…

Para ali!

Tenho a certeza. Agora sim eu sei! O caminho é para… a luz? para a escuridão? p’rá servidão ou p’ró que seduz? O caminho é…

Para ali!

Eheh…
Se não fosse para ali era para além
Mas fiz como deus me mandou.
Qual deles? Elah, p’r’aí já não vou!

Não se reneguem irmãos!
Acreditem irmãos!
Vamos irmãos!
P’r’ali irmãos!

Meus deuses!
Quantas cores eu vejo na vida!

Sangue

Olho-te e já vejo sangue
Doce como tu
Quente como teu corpo
Vivo como a paixão
Perdido como eu
No chão derramado
Coagulando numa nudez histérica

Olho-te e vejo-te ensangue
Com o meu sangue
Coberta do meu derrame
Gozando e sofrendo, rubra
Como se um orgasmo te rebentasse

Dizes que não?
Sangue é confirmação
Quem sangra tem sempre razão
Grita como quiseres
Nega até poderes
Eu sangro, calado
Olhando-te fundo
Onde meu sangue não chega